texto lindo da nossa querida Carol Gomes
Esse deve ser um dos posts mais difíceis de escrever aqui no Conselhos… Dia das mães chegando e, apesar de eu ter dois filhos lindos, esse dia ainda é um pouco triste pela ausência da minha mãe. Fico às vezes pensando o quanto gostaria que ela tivesse conhecido os netos e o quanto eles se enriqueceriam de ter conhecido uma pessoa tão maravilhosa quanto ela… quem tem que criar filhos sem a mãe por perto sabe do que eu estou falando.
Mas… apesar da minha mãe não estar mais por perto, tudo que eu vivi com ela foi tão maravilhoso, que com certeza tem um impacto direto na minha forma de ser mãe e consequentemente, nos meus filhos. Sempre que tenho uma dúvida, penso: o que a minha mãe faria nesse momento? Como ela resolveria essa situação? O que fez dela uma mãe tão especial? E logo aparece uma solução!
E entre as muitas coisas que tornaram a minha mãe especial, está o fato dela ter se esforçado muito para abrir espaço para o nosso crescimento e – mesmo querendo ficar com as filhas embaixo das asas – sempre ter repetido: “vocês não são minhas, vocês são do mundo”. Ela provocava a nossa curiosidade, estimulava a autonomia, mas sempre deixava uma ancora, um porto seguro, para o qual poderíamos voltar.
Ela falava sobre o quanto o mundo era bom, grande e curioso. Sobre a importância de conhecer o novo, de se abrir para novas experiências, confiar nas pessoas – que sempre tinham um lado bom. Sem ser naive, a visão dela era de que o mundo era bom e que devíamos vive-lo.
Lembro até hoje do pacto que ela fez com o açougueiro da esquina. Se nós estivéssemos em apuros, ele podia nos dar dinheiro, que depois ela pagaria. Dessa forma, ela falava: “pode pegar ônibus para ir aonde precisar. Se informe sobre o caminho, preste atenção, que vai dar tudo certo. E se tudo der errado, pegue um taxi que o açougueiro paga”. Foi assim que eu e a minha irmã conseguimos segurar a ansiedade de ter parado no centro da cidade quando tentávamos ir para a escola, na Av Brasil!
Foi assim também quando fiz viagens de mochilão para a Europa ou para os cafundós do Nordeste… telefonava uma vez por semana e ela sempre parecia empolgada ao telefone, quando na verdade devia estar super apreensiva. Era assim também quando eu chegada em casa de madrugada e ao abrir a porta da sala a via apagando apressadamente o abajour do quarto.
Ela nunca cobrou as minhas notas da escola, nem investigou quem eram as minhas amigas. Ela conversava comigo sobre todos os temas e falava: “a importância é essa, os riscos são esses, mas a vida é sua. Como você é tão inteligente, tenho certeza que tomará a decisão certa”.
Hoje, como mãe, imagino o quanto devia ser difícil segurar a onda! “Será que essa menina vai mesmo escolher o certo?”, “e se o ônibus parar no centro da cidade e ela se perder?”, “acho que vou vetar esse mochilão”, “ah, que vontade de pedir para ela me ligar do Nordeste todos os dias”…
Como mãe deve ter sido muito difícil, mas como filha, foi muito enriquecedor, pois a liberdade dela me transmitia confiança em mim mesma e ao mesmo tempo jogava toda a responsabilidade de volta para mim. Se algo desse errado, eu teria que solucionar, mas como ela me achava tão inteligente, com certeza eu saberia. Agradeço a ela todos os dias por isso.
Meus filhos ainda são pequenos e – por enquanto – não tem boletim, não pegam ônibus sozinhos, não saem à noite e nem querem ir para o Nordeste com os amigos, mas sei que esse dia vai chegar e tento me preparar diariamente para isso, exercitando o meu desprendimento e estimulando a autonomia deles.
Tento “apagar rapidinho o abajour”, para eles não perceberem o meu coração apertado e espero mesmo que eles cresçam com a visão de que o mundo é bom e está de braços abertos para recebe-los, bondosos, autônomos e curiosos. E, claro, estarei sempre disponível com um abraço carinhoso para dar um colo, mas um colo “breve”, porque afinal, eles não são meus, eles são do mundo… e todo vez que esse pensamento aperta o meu coração, volto para a poesia do Kahlil Gibran que era o mantra da minha mãe e agora compartilho com vocês, desejando que todas possamos ser ótimas arqueiras para as nossas amadas flechas!
“Vossos filhos não são vossos filhos,
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,
mas não vossos pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não podem fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás
e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito
e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projetem rápido e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria;
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável.”
Carol é mãe da da Bia e do Rafael

















